Numa época que as novelas pregam uma total promiscuidade, jogando os princípios morais no lixo sem nenhum pejo, essa encantadora história dos anos 60 é uma celebração otimista sobre a importância do amor, da família e do poder da música. Como é bom ver Julie Andrews e as crianças cantando Dó, Ré, Mi.
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O que você acha de Maria, Irmã Agatha? - É muito fácil gostar de Maria... a não ser quando é difícil. Afinal, a lâ da ovelha negra também aquece. |
Tenho mais medo da mediocridade que da morte. - Bob Fosse
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O cinema é um poderoso instrumento de escapismo. |
Afinal, qual é uma das finalidades mais importantes do
cinema? Não é afastar seu público, mesmo que por apenas um par de horas, da
realidade sufocante e às vezes cruel do mundo real? Pois é, mas houve uma
época, não muito distante, que os musicais recebiam críticas de gente que os consideravam escapistas. O argumento usado era que o
gênero contribuía para a alienação do público, desviando sua atenção dos
problemas do cotidiano, do mundo real enfim.
Escapismo é todo tipo de fuga psicológica, cujo objetivo seja aliviar momentos de pressão, uma 'válvula de escape'. Considerando a vida diária como o oposto, uma válvula de pressão, ela é representada pelas cobranças, responsabilidades e compromissos sem fim. Estes exemplos podem ser considerados elementos do real com os quais nem todos conseguem conviver muito bem. Todas essas coisas são meio sem muito sentido. Ora, o que ganhamos de prazeroso suportando tantas pressões? Esta ausência de sentido, somada ao peso que tais tarefas nos impõe, justifica e torna lógico essa fuga que praticamente todos procuram, seja qual por forma for, não importa o tipo de escapismo: drogas, música, mania de coleções (veja o personagem do filme Um Conto Chinês (1911), já comentado no blog, baladas. consumismo. Enfim, qualquer atividade que sirva como diversão, fuga. Obviamente, algumas são saudáveis, outras não.
Felizmente, o bom senso acabou prevalecendo e os defensores dessa afirmação bizarra caíram no esquecimento. Hoje, com a perspectiva que o tempo oferece, nada parece mais equivocado do que a pretensão de criticar algo usando como argumento justamente o que exiba de mais atraente. Afinal, se os musicais romperam as fronteiras americanas, transportando para as telas o mesmo sucesso conseguido nos palcos, e conquistaram fãs no mundo inteiro é justamente porque têm a saudável capacidade de levar o público a uma dimensão onde impera a fantasia. Não é pouco, mesmo dentro do universo do cinema, fantasioso por excelência. A dimensão dos musicais tem uma lógica própria segundo a qual um personagem, no meio de uma cena dramática, pode sair cantando e dançando para em seguida, ao final do número, retomar a ação como se nada tivesse ocorrido, e sem que ninguém, na tela ou fora dela, considere aquilo estranho.
Alguns dos principais nomes da história do cinema musical entram em cena na própria década de 30, como o diretor Busby Berkeley (1895-1976), que Hollywood trouxe da Broadway para injetar vida no gênero. Antes de sua chegada, os filmes resumiam-se a uma câmera estática registrando as coreografias em plano geral, quase como se estivesse no teatro. Berkeley fez uma pequena revolução, dando movimento à câmera e incrementando o uso de cenários. Ao mesmo tempo, surgia Fred Astaire (1899-1987), que formou com Ginger Rogers (1911-1995) o mais perfeito e invejado par na história dos musicais. Astaire reinaria sozinho como o dançarino número um 1 do cinema até a ascensão, nos anos 40, de Gene Kelly (1912-1996). Com a ressalva de que o estilo de ambos era muito diferente. Enquanto Astaire representava o modelo clássico, Kelly incorporava um estilo mais livre e atlético com acrobacias e piruetas, nem por isso menos importante, e portanto mais popular. De qualquer forma, ambos participaram de maneira decisiva da fase de ouro do gênero, entre os anos 40 e 50. Coube ao produtor Arthur Freed (1894-1973) reunir na Metro-Goldwyn-Mayer os maiores talentos da época, à frente e atrás das câmeras, para realizar uma sucessão inigualável de obras-primas: O Pirata (1948), Um Dia em Nova York (1949), Cantando na Chuva (1952), A Roda da Fortuna (9153) e Gigi (1958).
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Liza, no premiado filme Cabaret, de Bob Fosse. |
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Nicole Kidman como a cortesã Satine em Moulin Rouge. |
Uma noviça tão travessa e desastrada quanto encantadora
O
mais feliz dos felizes é aquele que faz os outros felizes. - Alexandre Dumas
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A noviça rebelde. |
...
— Como encontrar uma palavra que defina Maria?
— Imprevisível como o clima.
— Fugidia como uma pluma.
— É um demônio.
— Ovelha negra do rebanho.
— Ela enlouquece como uma peste.
— Tira um besouro do próprio ninho.
— É delicada, é maluca.
— Uma dor de cabeça.
— Ela é um anjo.
— É uma menina.
— Como resolver o problema que é Maria?
— Como pegar a lua com sua mão?
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Uma das mais belas imagens já produzidas pelo cinema. |
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Momentos mágicos que o tempo não corrói. |
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Pá de cal nas pretensões dos musicais. |
A década de 60 foi particularmente cruel para os musicais em Hollywood, pois haviam ficado fora de moda. Porém, mesmo diante desse cenário desfavorável, uma produção de 1965 conseguiu arrecadar inacreditáveis US$ 175 milhões somente nas bilheterias americanas e canadenses. O fenômeno, que foi mundial, era A Noviça Rebelde, um raro exemplo de título no Brasil que superou o original. Me recordo que o mesmo fenômeno se repetiu em BH, onde ficou por seis meses em exibição ininterrupta no extinto Cine Guarani. Um recorde que nunca mais vi ser repetido. Nada mau para um espetáculo que sua produtora, a Fox, que detinha os direitos hesitou muito em levar para as telas. E não sem razão, se considerado o que os musicais não tinham mais apelo por volta daqueles tempos. Foi nessa época que Darryl F. Zanuck (1902-1979), foi chamado ao estúdio para presidi-lo e tentar salva-lo da falência provocada pelo fiasco que foi a produção de Cleópatra (1963). Zanuck não estava convencido de conseguir um sucesso com um novo musical.
Entretanto, o sucesso não se repetiu com as produções seguintes e a pá de cal chegou em 1969 com Alô, Dolly!, um fracasso de público. Foi o suficiente para que os estúdios engavetassem os futuros projetos. O mesmo fenômeno havia ocorrido com o faroeste — ver "A Quadra de Ases - Introdução", publicado neste blog). O fato é que os roteiros com a ingenuidade que vigorava nos anos 30 e a exuberância nos musicais da Metro dos anos 40 e 50, com intervenção de canções nos diálogos, ou inteiramente cantados como em Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), sumiram das telas.
Entretanto, o sucesso não se repetiu com as produções seguintes e a pá de cal chegou em 1969 com Alô, Dolly!, um fracasso de público. Foi o suficiente para que os estúdios engavetassem os futuros projetos. O mesmo fenômeno havia ocorrido com o faroeste — ver "A Quadra de Ases - Introdução", publicado neste blog). O fato é que os roteiros com a ingenuidade que vigorava nos anos 30 e a exuberância nos musicais da Metro dos anos 40 e 50, com intervenção de canções nos diálogos, ou inteiramente cantados como em Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), sumiram das telas.
A Noviça Rebelde, uma excessão, surgiu da adaptação do show musical The Sound of Music, de Richard Rodgers (1902-1979) e Oscar Hammerstein II (1895-1960). Foi a última colaboração da dupla que já haviam tido sucessos com o O Rei e Eu, Carrossel (1956) e Oklahoma (1955), dentre outros. O show estreou na Broadway em 1959 e durou 1.433 performances, estrelada por Mary Martin e Theodore Bikel, dirigida por Vincent J. Donehue. Hammerstein sofreu operação de emergência durante os ensaios, em conseqência de um câncer, vindo a falecer em agosto de 1960. Desde então a peça tem sido regularmente remontada nos palcos.
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Shirley Jones e Gordon MacRae em Carrossel. |
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Amor, Sublime Amor, um Romeu e Julieta urbano. |
Foi então que o produtor Walter Mirisch (1921-), seu amigo, afirmou que esse diretor só poderia ser Robert Wise, Apesar de Wise ter figurado nos créditos como co-diretor, ao lado de Jerome Robbins (1918-1998), na verdade foi ele, de fato, quem dirigiu mais de dois terços do filme. Pois, Robbins era coreógrafo e entendia de teatro, foi quem idealizara o espetáculo para o palco, mas não de cinema. Não tinha a menor ideia de como cada cena, rodada sem ordem cronológica, ficaria depois do filme editado. Wise sabia, porque antes de dedicar-se à direção foi um excelente editor. Foi ele, ao lado de Mark Robson (1913-1978), não creditado, que montaram Cidadão Kane (1941), para Orson Welles (1915-1985).
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Ensinado música às crianças no deslumbrante cenário à sua volta. |
A produção já começaria com atraso. Para recuperar parte do tempo, Robert Wise foi apara a Áustria com a equipe técnica, à qual se juntou o veterano e experiente diretor de fotografia Ted D. MacCord (1900-1976), que acabou sendo seu último trabalho. Enquanto isso, Zanuck e seus agentes tentavam convencer Julie Andrews a aceitar o papel. Que ela decorou no avião, depois de assinar o contrato, voando atrás de Wise que a esperava.
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Uma das sequências em que o som foi adicionada depois. |
O talento e o perfeito domínio do timing e ritmo adquirido por Robert Wise e sua
experiência com West Side Story, permitiu-lhe que várias seqüências fossem
rodadas sem música e depois, na montagem, fosse acrescentada. Foi assim, por exemplo, na sequência do casamento de Maria com o Capitão Von Trapp, papel dado ao ator Christopher Plummer (1929-), bem como com as melhores seqüências do
filme, aquelas que Julie e as crianças cantam Do-Re-Mi.
A atriz e as crianças apenas cantavam a letra e Wise filmou a canção na montanha, na margem do rio, no mercado, na carruagem e no
jardim. E depois ele e o editor William Reynolds (1910-1997) selecionaram os
melhores momentos de cada seqüência e acrescentaram a música com som da melhor qualidade. Não há quem não se emocione. Claro, Wise
não fez tudo sozinho mas com a ajuda do diretor musical Irwing Kostal
(1911-1994), dos coreógrafos Marc Breau
e Dee Wood, e do produtor associado Saul Chaplin (1912-1997), egresso da
Metro e com experiência em musicais.
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Jerome Robins e Robbert Wise. |
O poder da música
A música é celeste, de natureza divina
e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição. -
Aristóteles
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O Capitão Von Trapp e seu famigerado apito. |
O filme, como é do conhecimento geral, foi baseado na história real do Capitão da Marinha austro-húngara Georg Ludwig Ritter von Trapp e da noviça Maria Augusta Kutscher, 26 anos mais nova. Obviamente, que a versão hollywoodiana apresenta uma versão ligeiramente romanceada de Maria e sua relação com os Von Trapp. Na Primeira Guerra Mundial, aliado da Alemanha, o austríaco Von Trapp, no comando de um submarino U-5, ficou famoso por atingir navios adversários. Entre eles estavam o couraçado francês Léon Gambetta, torpedeado em 1915; um submarino italiano no mesmo ano; o Nereide, e, no mesmo mês, afundou o cargueiro grego Cefalonia. Antes, com um megafone, pediu aos tripulantes para descerem os botes e saírem. E orientou-os sobre como chegar à costa. No final da guerra, visto como uma lenda, havia torpedeado onze navios mercantes de quatro nacionalidades, além das vitórias sobre o Gambetta e o submarino italiano Nereide, e a captura de um outro cargueiro civil.
Com a derrota da Alemanha na Primeira Grande Guerra, ela foi obrigada a assinar o em 1919 o Tratado de Versalhes, um tratado de paz assinado pelas potências europeias que encerrou oficialmente o conflito, ponto um fim aos confrontos. Ele foi assinado em Paris, após seis meses de negociações, e seu principal ponto determinava que a Alemanha aceitasse todas as responsabilidades por causar a guerra e que fizesse reparações a um certo número de nações da Tríplice Entente. Como devolver terras e pagar altas quantias em dinheiro para os países vencedores. Derrotada ao lado da Alemanha como aliada, a Áustria também perdeu territórios. A humilhação fez surgir uma onda de revanchismo alemão, que acabou culminado com ascensão de Hitler ao poder e a eclosão do segundo conflito mundial. Quando Hitler chegou ao poder, anulou o Tratado de Versailles, rearmou a Alemanha, e invadiu e anexou a Áustria ao seu território. Depois a Áustria foi usada como campos de concentração para Judeus, o mais famoso foi o de Mauthasen, em Viena.
Von Trapp, mesmo sem emprego, era um homem rico. Sua mulher, Agathe, herdara a fortuna de Robert Whitehead, seu avô, o inventor do torpedo. Com a Segunda Guerra Mundial batendo à porta, o Capitão Von Trapp é chamado em 1936 pela Kriegsmarine, a Marinha do Reich nazista ao lado de Hitler. Porém, Von trapp assistiu um comício de Adolf Hitler, austríaco como ele, e não gostou da encenação. Não batia com suas convicções. Portanto, por não concordar com seus ideais. Porém, não obstante o filme reproduzir o real interesse dos nazistas pelos serviços do Capitão Von Trapp, expert em guerra submarina, como um dos oficiais de sua Marinha, o episódio da perseguição da Gestapo, a polícia política do nazismo, aos Von Trapp não ocorreu.
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Chegando à casa do Capitão para o desafio de cuidar de sete crianças. |
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Maria entrando espavorida no convento, após descer da montanha. |
A chegada da moça vai mudar completamente seu comportamento, a rotina e o destino daquela família, ainda mais quando ela se apaixona pelo Capitão, que já estava comprometido com a rica baronesa Elsa Schraeder, vivida pela bela Eleanor Parker (1922-2013). Sem agradar muito no início, hostilizada pelas crianças e desobedecendo ordens ela chega a ser despedida. Com o tempo ela consegue encantar a todos, especialmente o Capitão. Maria altera de forma dramática a vida da família Von Trapp ao trazer de volta a alegria, conquistando o carinho e o respeito das crianças. No início ela enfrenta alguns problemas com o Capitão, mas este acaba se rendendo aos seus encantos e simplicidade, desenvolvendo um grande afeto por aquela jovem que conseguiu fazer o que nenhuma outra governanta havia antes feito por seus filhos. Eles acabam se apaixonando, e o Capitão, antes comprometido com baronesa, rompe o noivado para poder se casar com Maria. O convento perde sua noviça e a família Von trapp ganha um nova vida.
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O Capitão se rende aos encantos de Maria, que observa ao fundo, e canta Edelweiss com as crianças. |
Sem agradar muito no início, desobedecendo ordens e chegando a ser despedida, ela consegue com o tempo encantar a todos, principalmente ao Capitão. O fato é que Maria altera de forma dramática a vida da família Von trapp ao trazer de volta a alegria e conquistar o carinho e o respeito das crianças. No início ela enfrenta alguns problemas com o Capitão, mas este acaba se rendendo aos encantos e simplicidade dela, desenvolvendo um grande afeto por aquela jovem que conseguiu fazer o que nenhuma outra governanta havia antes feito por seus filhos. Eles acabam se apaixonando, e o Capitão, antes comprometido com Elsa Schraeder, uma rica baronesa de Viena vivida pela bela Eleanor Parker (1922-2013), rompe o noivado para poder se casar com Maria. O convento perde sua noviça e a família Von Trapp ganha um nova vida.
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O Capitão perfilando as crianças com ridículo apito. |
Antes da chegada de Maria, varias outras governantas fracassaram na espinhosa missão de cuidar dos capetinhas. Algumas não chegaram a ficar mais que um par de horas antes de se demitirem. Eram cinco meninas e dois meninos e o Capitão Von Trapp, cuja esposa já havia falecida. Desde então, o viúvo Capitão cuida dos seus sete filhos como se fossem um dos seus soldados, sem deixá-los brincar, cantar e se divertir. A ponto da comunicação com eles se dar através de um ridículo apito. A casa havia perdido a alegria, estava como que num estado de depressão. Fräulein Maria chega para a desafiadora tarefa de conquistar as crianças e, contra a vontade do Capitão, colocar por terra esse estado de coisas, mudando tudo e um novo espírito toma conta da casa.
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Herr Zeller olha com indignação para a bandeira austríaca asteada no hall da mansão Von Trapp. |
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Maria ajudando as crianças a superar o medo da tempestade. |
O roteiro, adaptado por Lehman, não obstante apresentar
alguns conflitos que impactam na narrativa, não tem como seu forte a
originalidade o que, para o expectador mais atento, torna previsíveis algumas
das ações dos personagens. Mesmo assim, o experiente Lehman consegue criar com
eficiência um musical que apresenta cenas de suspense. Principalmente aquelas
em que os nazistas estão envolvidos. Mas o que importa é que o resultado final,
do conjunto, é muito bom, e sua força está mesmo na direção segura de Robert
Wise e na qualidade das canções que dão seu toque mágico a este clássico
inesquecível.
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Coisa de cinema. |
So long, farewell, auf wiedersehen, good night / I hate to go and leave this pretty sight / So long, farewell, auf wiedersehen, adieu / Adieu, adieu, to yieu and yieu and yieu
Por Luiz Alvarenga
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